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Número 01 | Ano 2010

“Soubesse eu morrer iluminando”: o sentido da morte em Daniel Faria

Carlos A. Moreira Azevedo | Bispo Auxiliar de Lisboa

Comunicação proferida no âmbito do Seminário "a pergunta na hora de partir".

 

 

O meu contributo, pedido para este Seminário “a pergunta na hora de partir”, situa-se mais como “uma opção na hora de ficar”. De facto, Daniel Faria (1971-1999) desenvolve no seu percurso poético um sentido próprio de morte.  Na brevidade desta apresentação, que deseja sobretudo oferecer-vos uma leitura, arrumada ao meu jeito, de versos alusivos ao tema, sigo três tópicos. Inicio com o que o poeta descobre na sua observação, o seu conhecimento da morte, passarei à explicação do seu projecto de morrer e termino o tríptico com o fundamental sentido: a claridade da morte (1).

 

“O que sei da morte e da vida”

A atenção ao fenómeno da morte na natureza surge diversas vezes. Por exemplo, observa a fecunda abelha, que vai morrendo, no percurso da busca dos pólens que recolhe, nos contactos do seu ofício. Assim escreve: “a abelha também morre de deixar / de corola em corola a raiz” (278). Daniel coloca-se na toca dos bichos par se identificar com a experiência difícil da coerência da morte. A procura de pastos põe os animais a mexer: “Na transumância dos animais que buscam os pastos mesmo quando morrem / como qualquer estação que há-de vir […] (293). Este ritmo natural não deixa de ser contraditório. Aqui, o poeta místico cria uma fortíssima expressão comparativa. Considera a situação “semelhante à estéril que amamenta a sua dor” (293). Identifica-se com a experiência do amor do “pássaro / que não faz ninho […] / que não deixa o corpo por um pouco desejar / qualquer coisa diferente de morrer” (299). Fica patente a tentação de fugir da decisão de morrer, que veremos adiante.

Aos animais associa-se a vegetação: “magoa vera magnólia cair. Acredita” […] “eu nunca vou fechar os olhos / as mãos”. A observação obriga a um compromisso. A relação de dádiva diferencia o sentimento: “ há uma diferença / entre a magnólia que cresce fora / e aquela que regamos com o sangue” (329). Já na Oxálida nos convida: “vai / sentar-te / no campo / onde / se morre maduro” (383).

O Autor, “quando era criança de muletas” confessa: “estudei o movimento dos líquidos, segui o derrame da semente ao morrer.” A verificação de como morre a semente, como se liquefaz, abre o poeta para entender os ciclos naturais. A “morte da semente” enegrece até ao luto os campos (159).

Igualmente observa a morte dos que amamos. Vai-nos predispondo para não termos tanta ligação à terra: “Quando o pai morreu ela dissera: / não terei saudades deste mundo” (p.61). quando medita a morte de Jónatas, sublinha a ideia de que a morte de um grande amigo implica também a morte do amigo: “A espada está cavada no seu corpo / já não de Jónatas. No corpo de David” (154). Os efeitos da morte de um filho inspiram o poeta: “Que solitária está a cidade / enviuvou a mais povoada das nações / está de luto a que foi mãe / e em trabalhos forçados / passa a noite a dobar a sua noite” (163).

Para Daniel Faria o consciente conhecimento da morte é declarado: “ o que sei da morte e da vida/ é o livro escrito por dentro e por fora/ silêncio escrito por dentro/ palavra escrita a toda a volta da história”. (247).

Vejamos a força destas imagens de carácter apocalíptico-escatológico, isto é, lançadas para o sentido do futuro. A luta entre o fora e o dentro no processo de morrer vibra aqui: “silêncio escrito por dentro / palavra escrita a toda a volta da história”. O silêncio interior e a palavra, patente na história, são escritas por Deus. A atenção, desprendida de si, abre ao conhecimento da vida e permite entrar no sentido da história. Neste poema está o verso que Daniel Faria chegou a pensar escolher para título do livro “Dos líquidos”, ou seja “o que sei do céu”.

Percebemos assim a sua relevância. Ora o texto continua assim: “o que sei do céu / é a mão com que sossegas os ventos”. Esta relação entre manifestações (escrita) da natureza e o “silêncio escrito por dentro”, introduz a explicação da morte e da vida. Incide e grava-se na pessoa a coerência e a contradição entre o silêncio de dentro e a palavra reduzida ao tempo, à história em movimento.

O que o poeta beneditino conhece da morte não quer ver: “Conheço a minha morte e enrolo as minhas mãos / a tentação de as pôr sobre os olhos / quero ver-te mesmo quando sangro” (307). Há aqui um grande avanço relativamente ao que reflecte na Casa dos ceifeiros (1992), onde parte da observação exterior do enterro: “E na morte o regresso / das flores em mim” (397). O questionamento sobre o sentido profundo transparece nos versos do mesmo livro: “tu, porém, dormes sobre a morte/ a longa ausência que há dentro dos poemas” (399).
É esclarecedora a sua confissão no diário, dia 13 de Julho de 1993, recolhida no Livro de Joaquim: “Se eu um dia me suicidar, não há-de ser pela infelicidade da minha vida, mas pela felicidade da morte. Nada, como a morte, às vezes, me é tão sedutor. Não é dor, nem medo, nem ausência, nem peso. É apenas essa estranha leveza de não-ser e de tão pouco ser isso.
Se eu um dia me suicidar, não o farei como quem nega, mas como quem confirma. Na sua aparente traição, será ainda gesto infinitamente grato de quem nunca mereceu até o mínimo e mais desatento cuidado. Desprender-se – essa liberdade, não a maior… embora! Mas liberdade – para o nada, o absurdo, ou (se houver perdão) para o mais além.”(LJ 73). Na sua agitação interior de 1993 e 1994 cresce o “alento para morrer” (LJ 84), a decisão de morrer misticamente. Ainda no Seminário, a 28 de Fevereiro de 1994, escreve no diário: “Não tardará e direi ‘pela primeira vez na vida me sinto ressuscitado: a morte devolveu-me a vida, a partida do meu melhor amigo [Fernando Carneiro] devolveu-me o meu melhor amigo [Deus], o sofrimento devolveu-me a escrita, o vazio devolveu-me O sempre presente.” (LJ 80).

Muitos sinais trabalham a sua decisão de, em 1994 sair do Seminário da Sé e encarar a vida monástica. Daniel transporta da observação de uma ambulância com moribundo à espera de um sinal (uma buzina) para morrer. “Há na ambulância do cérebro fechado um moribundo / que espera no trânsito uma buzina para morrer”. (317). Não morre quando calha. No fluir da corrida, da azáfama da vida há um momento, tão ordinário e comum, mas próprio para terminar o percurso ou para entrar no ofício novo, na profissão de morrer (2).

 

“O meu projecto de morrer é o meu ofício”

Aquele verso de aparência cruelmente bela, “ o meu projecto de morrer é o meu ofício” (p. 85) é dos que mais identificam o género de morte a que o poeta de Baltar nos habitua. Morrer aparece não só como projecto pessoal, mas como ofício, isto é como o trabalho a desempenhar, em execução firme do projecto central da vida. Na profundidade interior percebe a singularidade do ofício pelo qual optar. Só o pode experienciar como espera, caracterizadora deste modo de vida. Já na marca do tempo, o trabalho de morrer é encontro e amor: “um modo de chegares”, “um modo de te amar”. Daniel sabe que, por um desejo intenso, vai entrando na morte, pelo caminho monástico. Daí que o poema É por isso que adormeço numa luz em movimento (p.133) seja muito interessante para entramos no sentido místico de Daniel Faria:


É por isso que adormeço numa luz em movimento
e escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
uma maneira quieta de estar nele tranquilo

Há nesse espaço uma fonte, um animal que desperta
uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.

Há uma voz que bebo. Há um espaço entre as mãos mas não perco
a sede. A água multiplica-se porque a tiro do coração
que escuta.

Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo

e posso beber dele morrendo
nele como quem entra de tanto
o desejar”.


Do mais vasto conjunto de poemas, ao todo 24, do livro “Dos líquidos”, intitulado “do inesgotável”, retiramos um sentido profundo da procura intensa do “como” morrer. É sua a prece: “Dá-me o como” (p. 244). Alicerçado na série de seis poemas, iniciados a partir da palavra “amo-te”, verdadeiras declarações de amor, Daniel manifesta a sua vontade: “ponho-me no silêncio/ dos teus lábios”, “posso ouvir-te /no firmamento” (p. 238); “quero parar como o servo colado ao chão” (239); “sou cítara para tocar as tuas mãos” (240); “quero cair em desuso/ fundir-me completamente” (241).

O auge do amor exprime-se no quinto poema (p.242). Sente as amarras que não o deixam morrer e identifica-se com o paralítico que Jesus cura, recorrendo mais uma vez à novidade da forma: “Amo-te com o cérebro em ferida / pensando-te / remédio que derramas em mim a tua medicina, a morte / no meu corpo. Até que repouse como enfermo no teu leito. Amo febrilmente amo o dia / em que disseres: Larga / a tua enxerga! - E ande”.

Daniel Faria “ama tão grandemente a ideia” do rosto de Deus (p.241) e afirma: “se soubesses como / queria amar-te tanto” (247), mas tem consciência viva de amar Deus na carne, com o “cérebro em ferida” e por isso considera a morte no corpo medicina para poder andar. Ama “febrilmente o dia” dessa libertação e ama “o caminho” que Deus lhe estende por dentro. Duvida se um “pássaro morto continua o seu voo”. Contudo não se importa de adoecer ao colo de Deus, de dormir ao relento entre as suas mãos (243).

A firme convicção de viver em trânsito, de querer continuar mendigo desviado de si, de ser porta encostada por quem entra, de desejar “ganhar a forma do degrau/ a forma da mão que se abre quando nada tem”. Apenas lhe interessam alguns órgãos do corpo, “instrumentos de posse” para não serem seus: “a língua para me calar / as rótulas, os calcanhares, os rins / o corpo inteiro, completo para morrer” (3).

Já fora da série, regressa ao termo “amo-te” para indicar a atitude diante de Deus, no qual encontra a “pulsação”, sem nunca o nomear: “amo-te com a constância do moribundo que respira / já sem saber de que lado o visita a morte/ Procuro a ligação entre ti e a luz […]”
Daniel sente-se, mais uma vez árvore e pássaro e reza finalmente: “Tu moves as agulhas, tu unes de novo / as minhas asas à curva do céu.” (246).

Se ainda restassem dúvidas, não pode ser mais claro o nosso poeta: “Escolhi a morte para ficar contigo / - planta filial e nómada / feixe de lenha que Isaac carrega na pergunta / viagem que inaugura / a árvore nova, a videira / que se estende sobre todos os ramos - / escolhi-te também para depois” (254).

O largo parêntesis reúne expressões referidas aos poemas anteriores, em espécie de recolha sintética para solenizar a declaração  resultante de longo debate interior e início de uma viagem (4) , de uma busca permanente que o poema seguinte desenvolve no ritmo cadenciado da palavra “procuro” (p.255). A opção pelo “trânsito” da morte é a opção por Deus, por isso é escolha para agora e escolha para depois, é escolha definitiva. O Autor põe-se descalço porque “necessita de atravessar-se” (255), de “desviar-se do seu coração e seguir viagem”, de “deixar ficar tudo e acrescentar a herança”. Na procura do “lento cimo da transformação”, “do cimo de um voo” (5) , parte de um amor que se vai anunciando ao longo da série: “amo a lenta floração dos bandos”, “amo tanto a árvore que abre a flor em silêncio”.

A experiência de morrer para ficar com Deus é exigente, e Daniel coloca diante de si o Crucificado. Reparemos na identidade com Cristo, própria da morte mística: “desconjunta” a carne. O poeta quer ser apenas humana água no curso do seu sangue, e fazer parte do caudal que jorra do seu lado aberto na cruz (257) (6).

Não é a verificação da morte física, biológica a que se refere quando escreve: “Na minha casa sou um utensílio que se vai quebrar / na minha casa sou alguém que vai morrer” (296). Seria demasiado óbvio. Mostra como a consciência de assumir uma opção pela morte vai ganhando terreno na família. As provas várias que experimenta evidenciam-se na confissão: “construo, nem sempre construo/ (nem sempre o coração irriga a morte) / desenhando no chão a altura das casas”. Este coração de monge a manter com água a morte, a implantar na terra lugares de altura dá-se a conhecer.  A 11 de Agosto de 1993 escreve no diário, recolhido no Livro de Joaquim: “A morte é a única boca que alimento. Os seus olhos tão próximos dos meus olhos; e só o sofrimento os desune”. (LJ 73).

Há um outro conjunto de poemas (299-302), a terminar o livro “das inúmeras vagas” para além do conjunto já referido, onde se ilustra o sentido decisivo da morte. “Todos os meus anos juntos se festejem de uma só vez e eu morra / agora/ e sobre este dia todos os dias / desçam / como inúmeras águas sobre uma gota de sangue” (300). A experiência da descida das folhas outonais aponta a descida dos dias em catadupa e implora a morte imediata, “agora”. Continua no poema seguinte: “Dou-te o degrau que ninguém quer à minha beira / a minha mão para que possas decidir / a direcção em que devo morrer.” (301).  A via mística aparece como caminho de morte. Caminho com degraus, com subidas e com o impulso das mãos para a decisão.

“A noite veloz bate a lâmpada azul contra as casas /
a luz que estilhaça /
a asirene. A noite bate na luz da lâmpada /
quebrando-a /
Soubesse eu a canção que cantam os mortos para anão adormecer /
Soubesse eu soldar o silêncio /
Existe sempre alguém que passa e que bate na noite /
a zumbidora lâmpada azul para não adormecer /
na morte /
Soubesse eu estilhaçar a noite. Soubesse eu morrer /
iluminando. (302)

 

“O que procurei: a claridade da morte” (305)

Já nos primeiros escritos publicados se divisa o tema da morte: “Deixo o corpo à sombra da flor mais alta / ao redor de uma lâmpada / apagada. Acendo a morte.” (22). “Então posso morrer / se não for noite” (CC,401). Transparece a dimensão positiva da morte como luz. Identifica-se com os mineiros: “homens que trabalham sob a lâmpada / da morte / que escavam nessa luz para ver quem ilumina / a fonte dos seus dias” (126). Essa relação morte e luz seria uma referência com fortuna na poesia do Daniel. Eis alguns exemplos: “Quando o pirilampo morreu / o homem disse: fiquei cego” (106); “ao pôr do sol / também eu morro” (431).

Observa como “a morte / das plantas é a sua infância nova” (p.31) e vibra em sintonia: “tenho aflição por tudo o que morre / como tenho pavor por cada noite que cai” (40). Esta sensibilidade não afasta, mas gera identificação com o grão de trigo e pode transmitir: “encosto-me à morte sem amparo ou sombra/ como a grão / abeiro-me da flor que virá e venho / à superfície do teu sonho […] “Rebento no interior da morte como o trigo […] (41). A leitura da ressurreição de Jesus, em belo e breve texto da “explicação da pedra enquanto lume”, recorre ao paradoxo: “semente após morte. Depois da mão do homem. Pão e / pedra/ removida e / redonda. / Paisagem aberta. Lado aberto. / pedra aberta/ redonda e / redonda.” (47). A introdução da palavra pão ilumina de novidade o sentido do texto (7). Não é só pedra redonda, é o pão redondo. Não é só a pedra aberta, é o lado aberto. É por esta morte que nova paisagem se abre e a semente acontece após a morte. É esta viragem, esta passagem, da morte em vida que dá à pedra do sepulcro a condição de lume para a escuridão humana. O poeta une sempre a luz com a morte e explica: “se acendes a luz / não morrerei sozinho” (51).

O “corpo continuamente a ruir” é uma claridade para a casa transformada em cabana (233). A relação entre luz e morte surge brilhante na leitura do episódio paulino de Damasco, com uma clarividência surpreendente: “A luz de Damasco golpeia […] é dura. Da dureza/ das pedras que um mártir junta com as mãos / com que empedra o caminho para a morte. A luz / de Damasco é esse lume / da oração de um mártir ao morrer” (208). Reparemos no trabalho duro do mártir, no ofício de empedrar “o caminho para a morte”. São os momentos de dureza da luz a preparar o mártir na oração para morrer. A luminosa relação com Deus é brilhante quando a morte ganha terreno a Deus nessa morte ganha totalmente o ser humano.

A constante equiparação morte e noite aparece circunscrita: “Porque a morte tem o seu tempo/ a sua ruína soma ruína, à cabeça / equilibra a existência desmoronada e interior./ […] és mais que a luz / porque a noite tem o seu tempo” (184). O místico procura estilhaçar a noite: “Soubesse eu estilhaçar a noite/ soubesse eu morrer/ iluminando”(302).

Absolutamente esclarecedor é Daniel quando escreve: “o que procurei: a claridade da morte/ ou precisando – se se pode regressar pelo mesmo / caminho que se toma para casa / o que medito (na cela nocturna): / as diferenças de luz da candeia no homem / quando desce / o que mais recordo: os degraus /(305). Mais à frente confessa-se triste: “Estou muito triste / na terra … estou sentado nos degraus / como alguém que parou de subir (321). Contrapõe o que lhe ensinaram com a sua fé: “já me ensinaram que o sol / não morre. Eu acredito / na noite ( o meu coração morre às escuras)”.(321).

É à luz da morte que Daniel Faria percebe a vida extraordinária de Foucauld (168). Temos de ler o poema: “ Pensa que morrerás mártir. Entre talhas / ao cair ressoará o teu corpo sobre o bojo. / Pensa que morrerás / esta tarde. Com a sangue no peito a marcar o umbral / da tua morada. Nu morrerás / e desconhecido. Na terra só o adorno / possui reconhecimento/ Pensa que morrerás / no chão / à tua porta./ E nunca mais acabarás / de regressar “/. A interpelação situa-se na linha do pensamento da morte: “pensa que morrerás”. Os elementos sucedem-se “mártir, esta tarde, nu, no chão/ à tua porta”. Do que conhecemos da vida de Charles de Foucauld foi de potente radicalidade no meio dos muçulmanos do Norte de África, em absoluta solidão, entre natureza e silêncio interior, até ser morto. Na caracterização da morte entram o tipo (martírio), a hora próxima (esta tarde), lugar (no chão), vestes (nu). Esta insistência descritiva, jornalística, define em quatro dimensões a pobreza rude de uma grande morte, que haveria de ser fecunda em seguidores espirituais.

A expressão martírio volta em poemas relativos à noite escura (p.223): “agora entendo o ovo e o mártir / quando é cercado para morrer”. A capacidade obtida para entender o cerco feito ao mártir é a mesma para entender “os dedos dos cegos”, ou seja, fazer do limite um dom, da morte, dádiva total. A plasticidade desta dádiva tem sugestivo e potente expressão no poema do sacrifício de Isaac. A disponibilidade de Abraaão é assim envolvente: “Queimarás o monte, o filho, a lenha/ a morte, as areias, a viagem / o deserto, a túnica, as estrelas / nunca será bastante o incêndio”. Este final inesperado, quando já parecia tudo oferecido – até a morte foi queimada – sublinha como a dádiva faz progressivo caminho, nunca bastante no exercício de morrer, de se deixar queimar sem restar ao lado coisa onde pousar o desejo.

Daniel conclui o livro “Homens que são como lugares mal situados” com os versos: “mas basta-me um quadrado de sossego”. “És agora uma máquina montada para a morte/ uma avaria dentro dela que lentamente desgasta/ e fabricas um homem que se afasta / do mundo.” (138). O “és agora” serve de cadência a todo o poema, indica a emergência da identidade do “animal que pensa”, “que se propaga no sono”. “máquina montada para a morte”. Essa explicação do animal humano passa pela vida do próprio Autor, à procura de um “quadrado de sossego / para a distância absoluta” (134), claustro para se afastar do mundo. O poeta vive “enclausurado na agilidade de um animal” (132), desenha “ uma maniera quieta de estar nele tranquilo” (133). O corpo “pode ser um lugar”. Assim declara: “posso tocar as chagas no corpo / e posso beber dele morrendo / nele como quem entra de tanto / o desejar” (133). O processo de liberdade do peso do corpo é descrito com violência nos poemas centrais: “tornei-me peso (136), Dinamitei depois tudo” (137). Só dinamitando o vazio, vencendo o “peso da ceguez”, chega ao “caminho desconhecido para casa”, proposto por um homem “que partia / o pão” (137). A dureza da experiência dá lugar ao encontro e à orientação.  Vive o “golpe no sono”. Compara: “andei com as narinas a sangrar um perfume / como um santo quando acaba de morrer” (141). Descreve um passo do processo em conversa com uma mulher (141-147) a quem pede: “destece-me / até que alguma coisa me pense para dentro” (144). O nosso poeta observa “quanta morte existe em redor / de quem nasce” e experimenta acordar com os “olhos comidos como um corpo depois de sepultado” (146) e verifica: “eu estava morto e vi / que os peixes e os pássaros / ressuscitavam” (147). A vida animal estimula o “animal que pensa” a entrar ao cerne da vida.

O poema: “entrei na sombra como alguém que via” é dos mais significativos para o tema em apreço. Daniel Faria celebra aqui a sua entrada na vida monástica “inteiramente vencido”. Termina o ritmo cadenciado, marcado cinco vezes pela palavra “entrei”: “entrei na sombra como alguém que via/ entrei devagar ao ritmo de um salmo/ […] entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto/ […] entrei em morte sucessiva no que vive / era a luz de uma árvore quando cresce/ e se ensombra para não ficar sozinha” (175). Foi dramática esta entrada em morte, mas “havia luz”. “Para caminhar livre” opta por “sandálias de sangue”, em total dom.

Podemos concluir afirmando que Daniel Faria narra poeticamente a experiência de ter nadado profundamente na morte e de trazer a mão ao cimo, à “tona da morte” (231). Aí descobriu: o respirar do arbusto, a neblina escavada em redor do silêncio, o reflexo do remo. Há nestes sinais de vitalidade a razão para entrar profundamente na morte.

O Daniel ordena a morte por antecipação, maia para a realizar do que para a padecer. Não se trata de se preparar para bem morrer, para dar sentido aos últimos aos dias, trata-se de optar pela vocação pelo ofício de morrer. Como há um chamamento para viver, há um para morrer. O morrer cristão é escutar um chamamento, é fechar os olhos para ver. Podemos como Daniel adiantar o ritmo cristão da existência: viver-morrer-viver e conscientemente, sem saltar etapas, entrar na convicção da esperança. Importa salvar a vida e salvar a morte para nos pormos definitiva e fielmente a salvo.

Daniel entendeu o nosso drama e disse-o com decisão vital e escreveu-o porque era muito nosso amigo como apaixonado de  Deus: “Sei bem que não mereço um dia entrar no céu / mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra” (62). Ou grita à infinita mãe: “dá-me o pão do céu porque morro / faminto morro à míngua do alto” (315).

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(1) Entrou no Seminário do Porto: Bom-Pastor (Ermesinde) – onde abriu o coração poético - e prosseguiu nos Seminários de Vilar e da Sé. A precocidade poética de Daniel Faria é notória. Na Escola Secundária Rodrigues de Freitas surpreendia a professora de Português com a sua precocidade criativa. Em 1994, depois de terminar o Curso de Teologia decidiu sair do Seminário Maior do Porto. Começa a frequentar a Faculdade de Letras. Aos poucos, a opção pela «Regra de S. Bento» ganha solidez. Concluído o Curso de Letras no ano lectivo de 1997/98, aproveitou esse ano para o postulantado no Mosteiro de S. Bento da Vitória. Em Outubro de 1998 iniciou em Singeverga, o noviciado, interrompido tragicamente, na noite de 2 para 3 de Junho do ano seguinte. Depois de alguns dias em estado de coma no Hospital de S. João (Porto), veio a falecer a 9 de Junho de 1999.
«Explicação das Árvores e de outros animais» e «Homens que são lugares mal situados» foram as obras que solidificaram o peregrino do silêncio. No entanto, deixou quase pronto, um outro livro - «Dos Líquidos» - publicado após a sua morte. A sua obra principal está reunida no volume «Poesia», publicado em Dezembro de 2003. Posteriormente, saiu «O livro de Joaquim». (2007).

(2) Por vezes, evoca a sabedoria dos mitos antigos, como Aquiles e Pátroclo, para mostrar o labirinto na procura de um caminho de sentido. Pode concluir: ”Esta nau não me levará a casa / e seguir-te não será morrer” (65). Noutro poema projecta a sua busca: “Não voltarei junto das ondas / nem do cabelo ondulado da mulher / vou construir o labirinto para a morte / deitar o corpo sobre o pó para morrer”. Para Daniel Faria construir o labirinto para a morte era encetar a vida mística, no monaquismo. O ritual de deitar-se no chão, de se irmanar com a terra, como que antecipa o corpo defunto na sepultura, a ser enterrado.

(3) A morte das imagens no sangue, no centro impulsionador da vida, abre caminho para que cresça o deserto, o silêncio: “ Para dizer que muitas imagens morrem / no meu sangue / […] Para dizer que o deserto / cresce depois” (323).

(4) Cf “ a minha viagem é mais funda do que os rios/ é mais funda a tua mão – vê como me lembro – ela sabe/ onde o meu corpo não suporta as correntes” (319).

(5) Já no livro “Explicação” há um poema alusivo aos voos, onde escreve: “estou ligeiramente acima do que morre / nessa encosta onde a palavra é como pão […]” (p.39).

(6) Nos últimos três poemas desta secção, Daniel Faria passa a falar em nome de outros e recorre ao plural para meditar sobre a nova presença de Cristo, agora que o túmulo está vazio e “nos sentamos em redor da mesa”. O último da série é uma doxologia sob a cadência do “Ele é, É ele”.

(7) Noutro lugar dirige uma mensagem criadora de desassossego a quem de facto parte da vida sem ter partido o pão: “escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o pão /grito-lhes: imaginai o que nunca tiveste nas mãos” (271). O símbolo do pão sustentado nas mãos e provado representa aqui o mais básico e elementar alimento que irmana a humanidade e a Eucaristia faz memória.

 

| Ficha técnica | © 2010 Revista Interdisciplinar sobre o Desenvolvimento Humano - Fundação Manuel Leão, 2010 |

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Índice

Nota de apresentação
Joaquim Azevedo

 

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"Soubesse eu morrer iluminado"
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Ficha técnica