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Número 01 | Ano 2010

A identidade em construção: uma leitura de Soi-même comme un Autre* por um olhar cruzado entre a Bioética e a Literatura

Susana Magalhães
Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa | Centro de Investigação em Bioética

 

 

Resumo


O pensamento de Paul Ricoeur interpela-nos a um olhar cruzado, pois é no encontro com o Outro e com a diferença que podemos dar sentido à realidade e a nós próprios. Este olhar cruzado é também parte da Bioética, área transdisciplinar de reflexão ética sobre a acção humana, onde se cruzam vários saberes, entre os quais podemos destacar a Literatura como um plano privilegiado de diálogo com o Outro. Ler Soi-Même comme un Autre sob o olhar de Vergílio Ferreira em Para Sempre insere Ricoeur na textura da vida humana, permitindo ao leitor experimentar a construção da identidade que é afinal alicerce da sua própria existência. Ler Para Sempre tendo no horizonte o pensamento de Paul Ricoeur amplia o sentido deste texto literário, na medida em que encontramos nele um território imaginário que é simultaneamente ponte e destino do encontro entre o pensamento bioético de Ricoeur e a palavra poética de Vergílio Ferreira.

 

 

Para aprendermos a compreender a realidade é necessário compreendermo-nos enquanto realidade. E para isso é preciso aprender a vermo-nos como o resultado da nossa procura de contar as nossas histórias, de nos ficcionarmos como possíveis outros, de nos aceitarmos como aquilo que resta do que podíamos ter sido, o que não é pouco. (Moreira Teixeira, A. -- «Eu próprio como se um outro fosse [Moi-Même comme si j’étais un autre] – A aprendizagem como auto-interpretação em Paul Ricoeur». In: Henriques, F. (coord) – A Filosofia de Paul Ricoeur. Coimbra: Ariadne, 2006, pp. 431-444.)   
António Moreira Teixeira

 

O pensamento de Paul Ricoeur interpela-nos a um olhar cruzado, pois é no encontro do Outro e da diferença que podemos dar sentido à realidade e a nós próprios. Ler Paul Ricoeur a partir de diferentes pontos de vistas devidamente contextualizados é responder ao seu apelo de uma reflexão dialéctica, consciente da impossibilidade de um conhecimento absoluto, aberta ao novo, ao inesperado, ao contraditório, capaz de promover a construção da identidade do sujeito que se auto-investiga enquanto investiga a realidade onde age e padece. Só por esta via longa de uma hermenêutica da suspeição, mas simultaneamente crente (em si, no Outro, em si como Outro) e de uma hermenêutica da ficção, somos capazes de ultrapassar a antinomia entre o silêncio da atestação de si, por um lado, e a linguagem da razão tendencialmente universal, neutra e impessoal, por outro. Dado que afirmamos que a nossa leitura implica um olhar a partir dos horizontes da Literatura e da Bioética, temos de definir estes dois conceitos antes de prosseguirmos na nossa análise.

Sendo a palavra bioética composta por dois termos – bios e ética, ou seja, a vida em si mesma e o lugar do ser/a prática comum do homem, os seus hábitos, as regras que segue (Patrão Neves, M.C; Osswald, W. -- Bioética simples. Lisboa: Editorial Verbo, 2000, p. 9.) -, podemos afirmar que numa perspectiva etimológico-conceptual, este vocábulo se refere a uma ética da vida, marcada pelo ineditismo da acção humana sobre a vida artificializável através das biotecnologias. A importância da acção sob o olhar da Bioética é uma das pontes entre esta área do conhecimento e a filosofia de Ricoeur, segundo a qual a intenção ética consiste em aspirar à vida boa com e para os outros em instituições justas (Ricoeur, P. -- Oneself as Another (translated by Kathleen Blamey). Chicago and London: The University of Chicago Press, 1992, p. 172.). Tal aspiração só é realizável através de acções que corporizem o nosso projecto de vida, organizadas através de um movimento de círculos hermenêuticos, pelos quais reflectimos sobre as nossas decisões, agimos em conformidade com elas, avaliamos o que fizemos, projectamos o nosso ser no futuro e simultaneamente rectificamos as nossas escolhas iniciais:

(…) How, we asked, can one maintain at the same time that each praxis has an end in itself and that all action tends toward an ultimate end? In the relation between practices and life plan the secret of the nesting of finalities, one inside the other, is to be found. Once it is chosen, a vocation confers upon the deeds that set it in motion this very character of an end in itself; and yet we never stop rectifying our initial choices. (…) The action configurations that we are calling life plans stem, then, from our moving back and forth between far-off ideals (…) and the weighing of the advantages and disadvantages of the choice of a given life plan on the level of practice (Ibidem, pp. 177-8.).


Este movimento retrospectivo e prospectivo das decisões e actos dos sujeitos que agem e padecem só é possível através da narrativa, pois é por um trabalho interminável de interpretação aplicado à acção e ao próprio sujeito que nós procuramos uma adequação entre o que nos parece ser o bem na nossa vida, por um lado, e as escolhas preferenciais que governam as nossas práticas, por outro. É neste ponto que a narrativa, literária ou não, se cruza com a intenção ética acima mencionada. Dado o carácter ficcional das narrativas das nossas vidas, simultaneamente enraizadas no mundo material e nos símbolos que o revelam e ocultam, parece-nos pertinente reflectir sobre as funções da Literatura em geral, como ponto de partida para uma análise da construção da identidade em Soi-Même comme un Autre e em Para Sempre, de Vergílio Ferreira.
Umberto Eco identifica várias funções da Literatura, sem as quais a actividade literária perde o sentido que a distingue de outras actividades humanas potenciadoras de prazer (ECO, U. - Sobre a Literatura, trad. José Colaço Barreiros. Algés: Difel, 2002). Em primeiro lugar, a Literatura tem um papel vital na construção da língua, da identidade e da comunidade de um povo, criando a oportunidade de transmissão e reflexão sobre os valores presentes ou ausentes no mundo dos leitores (a este propósito, recordemos que Ricoeur destaca o conteúdo ético das narrativas literárias (Ricouer compara a Literatura a um vasto laboratório de julgamentos morais: «…there is no ethically neutral narrative. Literature is a vast laboratory in which we experiment with estimations, evaluations, and judgements of approval and condemnation through which narrativity serves as a propaedeutic to ethics. » (Ricouer, P. – Onself as Another, p. 115)). A verdade revelada neste tipo de textos é, como sublinha Eco, um lugar de identidade:

Os textos literários não só nos dizem explicitamente o que nunca mais podemos pôr em dúvida, mas também, ao contrário do mundo, nos assinalam com soberana autoridade o que neles se deve assumir como relevante e o que não podemos tomar como ponto de partida para interpretações livres (Ibidem, p. 14).

 

O modelo de verdade disponibilizado pelo texto literário é materializado pelas verdades hermenêuticas enraizadas no próprio mundo do texto, o qual estabelece pontes e hiatos com o texto do mundo: pontes nas suas relações miméticas e especulares; hiatos na descontinuidade narrativa que por vezes assola as histórias narradas sobre a realidade onde os leitores se inserem. Estas pontes permitem que algumas personagens de obras literárias migrem de texto para texto, de livro para filme, do texto originário para a cultura popular, legitimando a afirmação de que há entidades da literatura – como Édipo, Otelo, Don Juan ou Perpétua - que estão entre nós, coexistindo como hábitos culturais, disposições sociais (Ibidem, p. 19). Actualmente, com o hipertexto, estas personagens podem perder a sua identidade, dado que é possível modificá-las, criando novas histórias a partir de outras, numa escrita criativa e livre. Sendo este exercício de criatividade importante no desenvolvimento da imaginação e da consciencialização do poder criador da linguagem literária não pode, no entanto, ser um substituto do verdadeiro papel educativo da literatura: revelar-nos a vulnerabilidade que existe a par, e não em antagonismo, com a nossa capacidade de autonomia:

A função dos contos inalteráveis é justamente esta: contra todos os nossos desejos de mudar o destino, dão-nos palpavelmente a impossibilidade de o alterar. E assim fazendo, seja qual for a história que contem, também contam a nossa, e por isso os lemos e amamos. (…) A narrativa hipertextual pode-nos educar para a criatividade. É bom, mas não é tudo. Os contos «já feitos» ensinam-nos também a morrer (Ibidem, p. 23 (sublinhados nossos)).


A consciência da nossa condição de seres situados no espaço e o no tempo é acompanhada pela aprendizagem da nossa liberdade de escolha, de movimento e de consentimento, sendo o paradoxo a figura de estilo por excelência do nosso ser. A articulação do voluntário e do involuntário, do outro e do eu, do outro que sou eu, do outro que é um eu e do outro em mim, da visão incompleta da minha existência que procuro colmatar através de um acto imaginativo pelo qual me vejo como uma terceira pessoa -- todos estes caminhos bifurcados estão presentes na Literatura:

Olho em volta e ao longe na fadiga da tarde quente. E então de súbito, ao olhar em baixo no terreno junto à casa – espera. Mas sou eu, conheço-me pelo cabelo ralo. Mas mais branco. Pudeste então envelhecer ainda? Sou eu, um instrumento qualquer nas mãos, vergado para a terra, cheio de curiosidades hortícolas. Sorrio de piedade – portanto, ainda mexes.
- Paulo! – digo-lhe eu cá de cima
e ele ergue para  mim a face cansada. Tenho pena de mim lá em baixo, a face encarquilhada de pregas. E a barba por fazer, parece-me, estás pois um relaxado. Mas também na aldeia, quem vai reparar? (…)
            -- Que andas aí a fazer?
Ele passa a mão pela fronte, deves estar a suar em bica, tu já não podes. E com este calor.
Para Sempre. Lisboa: Quetzal, 2008, p. 45, destacados nossos)

 

Neste passo do romance de Vergílio Ferreira, a personagem principal, Paulo, olha-se, depois da sua morte, percorrendo o tempo passado, num presente que se descola lentamente do tempo e do espaço terrenos. Neste olhar para si, de dentro e de fora de si, Paulo, que é também o narrador da sua história, o co-autor de um enredo tecido por si e pelos outros que com ele se cruzam, procura dar um sentido à sua existência através de uma narrativa, na qual é simultaneamente eu, tu e ele. Como afirma Ricoeur, by narrating a life of which I am not the author as to existence, I make myself its coauthor as to its meaning. (…) It is precisely because of the elusive character of real life that we need the help of fiction to organize life retrospectively, after the fact, prepared to take as provisional and open to revision any figure of emplotment borrowed from fiction or from history (Ricouer, P. – Oneself as Another, p. 162). A tríade eu-tu-ele subjacente à narrativa da nossa vida permite-nos descrever, narrar e prescrever, estabelecendo o elo fundamental entre a narrativa e a ética como alicerces da atestação de si – a crença no discurso do sujeito que dá testemunho de si, a certeza de ser aquele que age e padece, a confiança no poder de falar, fazer, narrar e finalmente prescrever. No entanto, a capacidade de dizer Aqui é o Lugar Onde Me Situo, não exclui a suspeita, mas inclui-a no seu processo de construção: Suspicion is also the path toward and the crossing within attestation (Ibidem, p. 302) ; as credence without any guarantee, but also as trust greater than any suspicion, the hermeneutics of the self can claim to hold itself at an equal distance from the cogito exalted by Descartes and from the cogito that Nietzsche proclaimed forfeit (Ibidem, p. 23). A vulnerabilidade do discurso, consciente da falta de um fundamento único e universal, expressa-se na constante ameaça da suspeição, sem a qual a atestação de si não existe. Do mesmo modo, o que o texto literário nos ensina, antes de mais, é que o seu sentido aponta sempre para outros textos, num movimento mimético e simultaneamente centrífugo:

A Literatura pode, deste modo, ser pensada e imaginada como um lugar de exploração da contextura da vida actual como um texto em incessante mutação. Face à sucessão de monólogos e não lugares – isto é, locais que servem apenas para que alguma coisa se passe e nada aconteça, a não ser o anonimato e a desidentificação dessa mesma passagem – que avassalam a nossa época, a criação literária dura, enquanto durar o Homem, seja de que modo for. É em torno desta situação que devemos hoje continuar a cumprir o lugar da literatura e o seu destino (Azevedo, C. -- «O lugar da Literatura». In: Revista da Faculdade de Letras «Línguas e Literaturas», Porto, XVI, 1999, pp. 9-22).


A responsabilidade de cumprirmos este lugar é tanto mais importante quanto mais conscientes formos da nossa condição de seres simultaneamente determinados e livres, autónomos e vulneráveis, que fundamenta a via longa do pensamento de Ricoeur. De facto, é por se assumir como ser incarnado e não mera subjectividade atópica, que este filósofo abre a filosofia ao mundo da não filosofia, nomeadamente ao discurso poético, partindo da premissa de que só pelo reconhecimento da existência e do valor de outros tipos discursivos ou de outros jogos de linguagem se constitui o saber (Cf. Henriques, F. -- «A Alteridade como Mediação Irrecusável – Uma Leitura de Paul Ricoeur». In: http://www.filosofia.uevora.pt/fhenriques/alteridade.pdf). Por outro lado, o diálogo com discursos de diferentes áreas do saber é condição do olhar bioético caracterizado pela prudência Aristotélica, orientado para a acção que se preconiza e aquela que apenas se vislumbra na imaginação, com aspirações universais mas situado no tempo e no espaço da actuação humana. A esperança e a suspeita presentes em Ricoeur estruturam a atitude dos que contribuem para a edificação da Bioética como saber dialogado e assente no poder da palavra que pensa a acção e que se faz acção:

(…) haverá sempre a palavra poética, haverá sempre uma reflexão filosófica sobre essa palavra poética e um pensamento político capaz de os reunir a ambos. Dito de outra maneira: a minha esperança está na linguagem; a esperança de que haja sempre poetas, de que haja sempre pessoas para reflectir sobre eles e de que haja pessoas para querer politicamente que essa palavra, que essa filosofia, produza uma política. É que eu diria que a minha aposta tem a figura da esperança (Ricoeur, P. -- L’unique et le singulier. Liège: Alice Editions, 1999, p. 72).

 

Em Ricoeur o sujeito auto-posiciona-se como o que investiga e o que é investigado, o que fala e o que procura saber quem fala, numa construção contínua da identidade:

Quem sou? Tem piada, não me lembro de jamais mo perguntar – quem sou? E desde quando comecei a sê-lo? Deve ser útil sabê-lo, que é que está dentro de mim? Para ao menos saber o que vou entregar à morte. Acaso saberei jamais quem sou? Ou o que sou, que é um pouco para cá disso? E que sou, fora do que fui sendo? Que é que perdura em mim do que fui sendo? O que sou, é curioso, o que sou é. Não sei. (…) (p. 111)

 

Curioso é vermos como estas reflexões do narrador do romance Para Sempre ecoam o texto Soi-même comme un Autre:

Is there a form of permanence in time that is a reply to the question «Who am I?»? It will immediately be apparent that this is a difficult question indeed if we consider the following reflection: when we speak of ourselves, we in fact have available to us two models of permanence in time which can be summed up in two expressions that are at once descriptive and emblematic: character and keeping one’s word. (…) (p. 118)

As palavras de Ricoeur em paralelo com as de Vergílio Ferreira sublinham a questão da identidade pessoal como um processo de construção entre o mesmo (idem; o que sou) e o que permanece nas diferenças que ocorrem no tempo (ipse; quem sou?), não se podendo confundir estes dois termos que são afinal duas perspectivas de interpretação de Selfhood. A mediação entre estes dois pólos da identidade é feita pela narrativa, pela palavra, a cujo reino estamos condenados, não constituindo esta condenação um castigo, mas sim um privilégio, o privilégio de podermos constituir um falar comum (Henriques, F. -- «A Alteridade como Mediação Irrecusável – Uma Leitura de Paul Ricoeur»). Ao inscrever a identidade na sobreposição dos traços que nos identificam, dos hábitos que nos assinalam e da promessa de cumprir a palavra dada apesar das mudanças no tempo, Ricoeur dá à Literatura um lugar preferencial, lugar por excelência da metáfora e da imaginação, no qual podemos testar este processo de construção da identidade, imaginando que somos Outro num mundo alternativo de caminhos que se abrem a diferentes desfechos:

O jardim de caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts’ui Pen. Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Não existimos na maioria desses tempos; nalguns existe o senhor e não eu. Noutros, eu, não o senhor; noutros, os dois (Borges, J.L. -- «O Jardim de Caminhos que se Bifurcam». In Borges, J.L.—Ficções. Lisboa: Livros do Brasil, 1969, p.108).

 

Neste diálogo entre duas personagens do conto O Jardim de caminhos que se bifurcam de Jorge Luís Borges, a imagem do labirinto poderia ser aplicada à narrativa ficcional que nos dá a oportunidade de imaginar o imprevisível, explorar o outro que está em nós e fora de nós, e aumentar a nossa consciência do outro como parte integrante da identidade narrada.
No campo da Bioética e da Educação estas considerações ganham especial relevo, principalmente se recordarmos dois momentos marcantes na vida de Paul Ricoeur. Referimo-nos à sua condição de prisioneiro na Segunda Guerra Mundial e ao episódio de violência na Universidade de Nanterre, momentos que suscitam uma reflexão sobre o modo como a perspectiva que temos do Outro condiciona a nossa acção, entre a certeza de quem somos e a busca incessante da nossa identidade:

Between the imagination that says, «I can try anything» and the voice that says, «Everything is possible but not everything is beneficial (understanding here, to others and to yourself», a muted discord is sounded. It is this discord that the act of promising transforms into a fragile concordance: «I can try anything», to be sure, but «Here is where I stand! » (Ricoeur, P. – Oneself as Another, pp. 167-168).

 

Ambas as situações cima mencionadas revelam o drama complexo inerente à experiência do filósofo durante as transformações da sociedade entre 1939-1945, num caso, e a mudança do sistema universitário francês na década de sessenta do século passado, no outro. A complexidade da relação sujeito-Ricoeur com o Outro no contexto da guerra e da violência estudantil estimularam a reflexão do filósofo sobre o Mal:

Evil is not symmetrical with the good, wickedness is not something that replaces the goodness of a man; it is the staining, the darkening, the disfiguring of an innocence, a light, and a beauty that remain. However radical evil may be, it cannot be as primordial as goodness (Ricoeur, P. – The Symbolism of Evil, trans. Emerson Buchanan. Boston: Beacon, p. 156).

 

Para Ricoeur, o mal não é parte estruturante da realidade ontológica do ser humano, situando-se no plano ético, sujeito à vontade e ao livre-arbítrio humanos. A violência emerge quando a interacção com o outro é substituída pelo poder sobre o Outro, ou seja, quando não reconhecemos o Outro como pessoa, exercendo o poder da nossa vontade sobre outra vontade. A diluição deste poder e a abertura ao diálogo podem ser incentivados na Educação através do convite ao olhar cruzado dos vários domínios do saber. Ora, é este olhar cruzado de saberes que a Bioética propõe e constitui, na mesma medida, que a Literatura se apresenta, no âmbito da educação, como um plano privilegiado de diálogo com o Outro:

Num mundo cada vez mais agressivo, onde as formas de violência vão do subtil ao manifesto e brutal, é responsabilidade humana, também no âmbito das instituições educativas, unir vontades, escrever novos textos, imaginar narrativas metafóricas que, como pensamento excessivo, desvelem o excesso de sentido existente na realidade social e possam, definitivamente, conduzir ao possível, a uma nova refiguração do real, invertendo este percurso inumano, e abrir as portas da esperança colectiva a uma cultura de harmonia, de equidade, de justiça e de paz (Tavares, M. -- «Um projecto de esperança intempestiva: em torno de uma pedagogia da não violência». In A Filosofia de Paul Ricoeur, coord. Fernanda Henriques. Coimbra: Ariadne, 2006, p. 429 (destacados nossos)).

 

Adquirir a sabedoria de olhar a nossa identidade como uma construção partilhada entre o si e o Outro é um dos primeiros passos para implementar esta cultura da não violência acima mencionada. Como afirma Sara Fernandes, em «Ricoeur e o problema da identidade pessoal» (Fernandes, S. -- «Ricoeur e o problema da identidade pessoal», In: A Filosofia de Paul Ricouer, coord. Fernanda Henriques, p. 263), arte e identidade pessoal estão profundamente relacionadas, na medida em que a construção e desenvolvimento da última é um processo que requer imaginação e criatividade e socorre-se de uma modalidade artística – a narrativa – que o ser humano criou com a finalidade última de se auto-compreender e projectar mundos novos/possíveis onde pudesse habitar.

Nesta concepção da relação entre o Homem e o Mundo e entre o Homem e ele próprio mediada pela narrativa reside, segundo Daniel Serrão, o pensamento bioético em Paul Ricoeur. No artigo de Serrão, «Há pensamento bioético em Paul Ricoeur?», o autor analisa o papel da linguagem e da interpretação na constituição da identidade das comunidades humanas, concluindo que a leitura constitui uma característica intrínseca à relação entre a humanidade e o mundo. De facto, a narrativa da Criação em Génesis, 2-11, constitui uma narrativa primordial, um texto fundante de uma comunidade humana que o recebe como instrução, constituindo-se nele e com ele: os cristãos, como os hebreus, são comunidades de leitura e interpretação, como ensina Ricoeur, que partilham uma hermenêutica dos textos fundantes, da nova e da antiga Aliança, e nessa hermenêutica se interpretam a si próprios. (p. 195) (Serrão, D. -- «Há pensamento bioético em Paul Ricoeur?». In: A Filosofia de Paul Ricoeur, coord. Fernanda Henriques. Coimbra: Ariadne, 2006, pp. 193-7) Destacamos ainda a hipótese formulada por Serrão sobre a questão que Ricoeur poderia ter discutido se tivesse escrito a Van Potter: talvez a bioética como metáfora do vivente ou do corpo que existe -- «Mon corps n’ést ni constitué au sens de l’objectivité, ni constituant au sens du sujet transcendental; il échappe à ce couple de contraíres. Il est moi existant.» (Ricoeur, Philosophie de la volonté. Le volontaire e l’involontaire. Paris: Aubier-Montaigne, 1950) (Serrão, D. -- «Há pensamento bioético em Paul Ricoeur?», p. 193).

Este olhar sobre o corpo como condição que nos aprisiona enquanto necessidade, mas que também nos liberta, é experimentado pelo leitor de Para Sempre:

Meu corpo que amei. Corpo da minha alegria, do meu prazer, corpo delicado do meu encantamento. Dia a dia ressequido, esvaziado do teu esplendor. Face óssea, esverdeada de matérias repelentes, olhos baços de matérias viscosas. O asco, o asco – meu corpo lindo. (…) Até que bruscamente. O corpo cresceu-lhe desmedidamente, os pés saltaram-lhe para fora da cama, saíram-lhe da barra ao fundo, a face voltou-se-lhe de lado e assim ficou. Tinha os olhos semiabertos, a boca ressequida num esgar horrendo. (…) A noite descera sobre a cidade. Caminhei à toa pelas ruas iluminadas. (pp. 287; 289)

 

O diálogo imaginado por Serrão entre Ricoeur e Potter abre caminho para o lugar que a teoria deste filósofo poderá ocupar no campo da Educação, apesar de não haver na sua obra uma orientação para o campo pedagógico, pois como ele próprio afirma (il) ne propose pas de concept de développement permettant d’identifier des stades différenciés de la vie morale. (Jardim. M. A. -- Da Hermenêutica à Ética em Paul Ricoeur: contributos para um desenvolvimento educativo e moral através da literatura. Porto: Edições Fernando Pessoa, 2003, p. 11).

Apesar desta objecção, Ricouer considera que um olhar para a educação, a partir da sua teoria hermenêutica e do seu conceito de identidade narrativa, não só é possível, como permite enriquecer a sua própria visão.

Nem tudo é linguagem ou textualidade na teoria de Ricoeur, como se pode constatar pelo conceito de promessa, mas é no texto literário que se abre a oportunidade de experimentação de mundo alternativos, nos quais podemos consolidar a nossa reflexão ética e encontrar consolação no sentido de uma verdadeira catarse quanto às questões limites, como é o caso da morte: «As for death, do not the narratives provided by literature serve to soften the sting of anguish in the face of the unknown, of nothingness, by giving it in imagination the shape of this or that death, exemplary in one way or another? Thus fiction has a role to play in the apprenticeship of dying.» (Cf. Ricoeur, P. – Oneself as Another, p. 162).

Concluímos com um diálogo imaginado por nós entre o texto de Ricoeur, Soi-même comme un Autre, e o romance Para Sempre, de Vergílio Ferreira:

Projecto assim não um depois-da–morte, mas um morrer que seria uma última afirmação da vida. A minha experiência de um fim da vida alimenta-se deste voto mais profundo de fazer do acto de morrer um acto de vida. (…) Importa ser vivo até à morte empurrando o desprendimento até ao luto da preocupação pela sobrevivência.
(Paul Ricoeur, 22 La critique et la conviction. Entretiens avec François Azouvi et Marc Launay. Paris: Calman-Lévy, 1995, p. 239.)

 

A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. E as estrelas, e os animais. Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede. (…) O dia acaba devagar. Assume-o e aceita-o. É a palavra final, a da aceitação. (…) Pensa com a grandeza que pode haver na humildade.Pensa. Profundamente, serenamente. Aqui estou. Na casa grande e deserta. Para sempre. (Vergílio Ferreira, Para Sempre, pp. 301-2)

 

AGRADECIMENTOS
Fundação para a Ciência e a Tecnologia | Bolsa de Doutoramento SFRH/BD/46385/2008

 

BIBLIOGRAFIA
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*A nossa leitura de Soi-même comme un Autre focaliza essencialmente a questão da identidade narrativa e da identidade pessoal, que não se confundem, mas que se complementam, num processo de construção da pessoa marcado pela interpretação-- a hermenêutica --, encontrando-se na Ética o ponto mais alto da unicidade entre ser e dever ser.

 

| Ficha técnica | © 2010 Revista Interdisciplinar sobre o Desenvolvimento Humano - Fundação Manuel Leão, 2010 |

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Índice

Nota de apresentação
Joaquim Azevedo

 

Estado e sociedade: Estado arbitrário, ou Estado subsidiário?
Autor: Mário Pinto

A identidade em construção: uma leitura de Soi-même comme un Autre por um olhar cruzado entre a Bioética e a Literatura
Autor: Susana Magalhães

Los desafíos de la educación básica en el siglo XXI
Autor: Juan Carlos Tedesco

Construir la interculturalidad
Autor: Miguel Ángel Santos Guerra

Escola, igualdade e diferenças
Autor: Joaquim Machado

Boa ética e boa ciência: o percurso da investigação em células estaminais
Autor: Ana Sofia Carvalho

"Soubesse eu morrer iluminado"
Autor: Carlos A. Moreira Azevedo

Provar a compaixão no final da Vida. Uma reflexão a partir de Schpenhauer e Levinas
Autor: Marta Brites

Reinventar a Escola para Redescobrir as Pessoas
Autor: José Matias Alves

Sim! É possível reduzir ainda mais o insucesso e o abandono escolar
Autor: Diogo Simões Pereira

 

Submissão de artigos

Ficha técnica